sábado, 18 de novembro de 2017

juras secretas


jura secreta 115

este teu olho que me olha
azul safira
ou mesmo verde esmeralda fosse
pedra – pétala rara
carne da matéria doce
ou mesmo apenas fosse
esse teu olho que me molha
quando me entregas do mar
toda alga que me trouxe



 

 jura secreta 116

nossas palavras escorrem
pelo escorrer dos anos
estradas virtuais
fossem algaravias
nosso desejo que não se concreta

e
eu tenho a fome entre os dedos
a sede entre os dentes
e a língua sobre a escrita
que ainda não fizemos

e o que brota desse amor latente
se o desejo
é tua boca
no lençol dos dias?


Artur Gomes




juras secretas


jura secreta 96

te procurei na Ipiranga
não te encontrei na Tiradentes
nas tuas tralhas tuas trilhas
nos trilhos tortos do Brás
fotografei os destroços
na íris do satanás

a cara triste da Mooca
a vaca morta no trem
beleza no caos: urbana
beleza é isso também

meu bem ainda mora distante
deste bordel carNAvalho
a droga a erva o bagulho
Tietê um tonto espantalho



jura secreta 98

fosse quântico esse dia
calmo claro intenso inteiro
20 de fevereiro
sendo assim esperaria

mesmo que em meio a tarde
TROVOADAS tempestades
insanidades guerras frias
iniqüidade
angústia
agonia
mesmo assim esperaria

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias

até quando esperaria?
até que alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria


Artur Gomes 

juras secretas


jura secreta 55

1

Xangô é parte da pedra
Exu fagulha de ferro
Ogum espada de aço
faz do meu colo teus braços

Oxossi é carne da mata
Yansã é fogo vento tempestade
Yemanjá água do mar
Oxum é água doce

Oxalá em ti me trouxe
te canto como se fosse u
m novo deus em liberdade

2

sou teu leão de fogo
todo jogo que me propor eu topo
beber teu copo comer da tua comida
encarar de frente  a janela de entrada
e se for preciso a porta de saída



jura secreta 89

a face oculta da maçã
duas partes que se abrem pêssego

campo de girassóis teus pelos
alvoroçados sob o sol de Amsterdã

enquanto isso
em teus mamilos penso
o que ainda não comi desta maçã

Artur Gomes 


unplugget


unplugged

quero botar no seu Orkut
um negócio sem vergonha
um poema descarado
tá chegando fevereiro
e meu rio de janeiro
fica lindo e mascarado

quero botar no seu e-mail
um negócio por inteiro
eu não sou Zeca Baleiro
pra ficar cantando a Mama
que ainda tem medo do Papa

meu negócio é só com a mina
que me trampa quando trapa
meu negócio é só com a mina
que me canta ouvindo Rappa


 

jura secreta 54

moro no teu mato dentro
não gosto de estar por fora
tudo que me pintar eu invento
como o beijo no teu corpo agora

desejo-te pelo menos enquanto resta
partícula mínima micro solar floresta
sendo animal da Mata Atlântica
quântico amor ou meta física
tudo o que em mim não há respostas

metáfora d'Alquimim fugaz Brazílica
beijo-te a carne que te cobre os ossos
pele por pele pelas tuas costas

os bichos amam em comunhão na mata
como se fosse aquela hora exata
em que despes de mim o ser humano
do corpo rasgamos todo pano

e como um deus pagão pensamos sexo. 

Artur Gomes 

entri/dentes


entri / dentes

queimando em Mar de Fogo me Registro
lá no fundo do teu íntimo
bem no branco do meu nervo
brota uma onde de sal e líquido
procurando a porta do teu cais

teu nome já estava cravado nos meus dentes
desde quando Sísifo olhava no espelho
primeiro como Mar de Fogo
registro vivo das primeiras Eras

segundo como Flor de Lótus
cravado na pele da flor primavera
logo depois gravidez e parto
permitindo o Logus
quando o amor quisera




fulinaimânica sagarínica

não sou iluminista nem pretender
eu quero o cravo e a rosa
cumer o verso e a prosa
devorar a lírica a métrica
a carne da musa
seja branca negra amarela
vermelha verde ou cafuza

eu sou do mato
curupira carrapato
sou da febre sou dos ossos
sou da Lira do Delírio
São Virgílio é o meu sócio

Pernambuco Amaralina
vida breve ou sempre vida/severina
sendo mulher ou só menina
que sendo santa prostituta
ou cafetina devorar é minha sina
e profanar é o meu negócio

 Artur Gomes



poétika


poética

em todas minhas partes
concretas abstratas
o amor sempre retrata
todo espelho que vivi


 
jura secreta 27

o rio com seus mistérios
 molha meu cio em silêncio
desejo o que nos separa
a boca em quantos minutos
as flores soltas na fala
 o pó dos ossos dos anos 

você me diz não ter pressa
seus olhos fogo na sala
 o beijo um lance de dados
cuidado cuidado cuidado
que sou um anjo de fadas
não beije assim meus segredos

meus olhos faróis nos riachos
meus braços dois afluentes 
pedaços do corpo do rio
meus seios ilhas caladas
das chamas não conhece o pavio


 se você me traz para o cio
assim que o sexo aflora
esta palavra apavora
o beijo dado mais cedo
quebra meu ser no espelho

meu cerne é carne de vidro
na profissão dos enredos
quanto mais água me sinto
presa ao lençol dos seus dedos

o rio retrata meu centro
na solidão de mim mesma
segundo a segundo nas águas
lá onde o sol é vazante
lá onde a lua é enchente
lá onde o rio é estrada 
onde coloca seus versos
me encontro peixe e mais nada



 Artur Gomes 

juras secretas


jura secreta 18

te beijo vestida de nua 
somente a lua te espelha 
nesta lagoa vermelha 
Porto Alegre cais do porto 
barcos navios no teu corpo 
os peixes brincam no teu cio 
nus teus seios minhas mãos 
as rendas finas que vestias 
sobre os teus pelos ficção 

todos os laços dos tecidos 
e àquela cor do teu vestido 
a pura pele agora é roupa 
e o batom da tua boca 
o sabor da tua língua 
tudo antes só promessa 
agora hóstia entre os meus dentes 

e para espanto dos decentes 
te levo ao ato consagrado 
se te despir for só pecado 
é só pecar que me interessa 

 

jura secreta 34

te amo
e amor não tem nome
pele ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos
e segredos

mas não tenha medo
pode doer pode sangrar
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
porque te amo

na mar no sal no sol na neve

Artur Gomes

meta metáfora


meta metáfora no poema meta

como alcançá-la plena
no impulso onde universo pulsa
no poema onde estico plumo
onde o nervo da palavra cresce
onde a linha que separa a pele
é o tecido que o teu corpo veste

como alcançá-la pluma
nessa teia que aranha tece
entre um beijo outro no mamilo
onde aquilo que a pele em plumo
rompe a linha do sentido e cresce
onde o nervo da palavra sobe
o tecido do teu corpo desce
onde a teia que o alcançar descobre
no sentido que o poema é prece

Artur Gomes




jura secreta 16


para may pasquetti 

fosse esta menina Monalisa 
ou se não fosse apenas brisa 
diante da menina dos meus olhos 
com esse mar azul nos olhos teus 

não sei se MichelÂngelo 
Da Vinci Dalí ou Portinari te anteviram 
no instante maior da criação 
pintura de um arquiteto grego 
quem sabe até filha de Zeus 

e eu Narciso amante dos espelhos 
procuro um espelho em minha face 
para ver se os teus olhos 
já estão dentro dos meus 


 Artur Gomes

sargaço em tua boca espuma


sargaço em tua boca espuma

em Armação de Búzios
 tenho um amor sagrado
guardado como jura secreta
que ainda não fiz para Laís

em teus cabelos girassóis de estrelas
que de tanto vê-las o meu olho  vela
e o que tanto diz  onda do mar  não leva
da areia da praia onde grafei teu nome
para matar a sede e muito mais a fome

entranhada  na carne como flor de Lotus
grudada na pele como tatuagem
flutuando ao vento como leve pluma
no salgado corpo do além mar afora
sargaço em tua boca espuma
onde moram peixes  - na cumplicidade
do que escrevo agora


 

jura secreta 14

eu te desejo flores
lírios brancos margaridas
girassóis
rosas vermelhas
e tudo quanto pétala
asas estrelas borboletas
alecrim bem-me-quer e alfazema

eu te desejo emblema
deste poema desvairado
com teu cheiro
teu perfume
teu sabor, teu suor
tua doçura

e na mais santa loucura
declarar-te amor até os ossos

eu te desejo e posso
palavrArte até a morte
enquanto a vida nos procura

Artur Gomes





baby cadelinha



bolero blue

beber desse conhac em tua boca
para matar a febre nas entranhas
entredentes
indecente é uma forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo

é que a fome desse beijo
furta outra qualquer palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai


 baby cadelinha

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob o esterco de vênus
onde me perco mais me encontro menos
de tudo o que não sei
só fere mais quem menos sabe
sabre de mim baioneta estética
cortando os versos do teu descalabro

visto uma vaca triste como a tua cara:
estrela cão meu gatilho morro
a poesia é o salto de uma vara

disse-me uma vez quem não me disse
ferve o olho do tigre quando plasma
letal a veia no líquido do além
cavalo máquina meu coração quando engatilho

 devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os demônios de Eros
onde minto mais porque não veros
fisto uma festa a mais que tua vera

cadela pão meu filho forro
a poesia é o auto de uma fera

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os panos quem incesta
perfume o odor final do melodrama
sobras de mim papel e resma
impressão letal dos meus dedos imprensados
misto uma merda a mais que tua garra:

panela estrada grão socorro
a poesia é o fausto de uma farra

Artur Gomes