quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

jura secreta 127

me apaixonei por silvinha
a sombra das jabuticabeiras
não eram árvores de vinhas
numa noite em jardinópolis
latia o coração da metrópolis
na cidade dos cemitérios
pergunto qual os mistérios
e o sexo que o anjo tinha
pra me cumer daquela forma
uva na boca silvinha



jura secreta 126

as orquídeas ainda são azuis
girassóis relâmpagos na chuva
na surpresa dentro a tempestade
dessa manhã que finda
pimenta tua boca em chamas
incendeia meus lençóis profana
essa linguagem como arco-íris
como se fosse pulsação que arde
nas entranhas dessa luz de fogo
nos meus dentes mastigando a tarde


meta metáfora no poema meta

como alcançá-la plena
no impulso onde universo pulsa
no poema onde estico plumo
onde o nervo da palavra cresce
onde a linha que separa a pele
é o tecido que o teu corpo veste

como alcançá-la pluma
nessa teia que aranha tece
entre um beijo outro no mamilo
onde aquilo que a pele em plumo
rompe a linha do sentido e cresce
onde o nervo da palavra sobe
o tecido do teu corpo desce
onde a teia que o alcançar descobre
no sentitdo que o poema é prece


miragens e metáforas –

a minha língua de fogo
persegue tua língua na fala.
não sei me calar na cozinha
no quarto corredor ou na sala

a minha línguagem de luas
é o que na língua resvala
se tenhos os pés calejados
se tenho as mãos inda tontas

e a língua bêbada de noites
dos dias que que miragens não vi
minutos que metáforas se calam
são como favelas vazias
e os olhos perdidos na vala

no líquido que vem das veias
a minha língua se farta
e bebe o teu como a.água
como se chupa uma bala


As flores do bem-me-quer

gaivotas perseguem peixes
quando estão com fome
a musa da minha janela
depois da prova de física
desfolha Charles Baudelaire

tem um jardim imaginário
no quintal desta metáfora
e um mar de algaravias
dentro dos olhos dela

percebo a flor da infância
bem-me-quer em teu cabelos
peixes que não são nuvens
girassóis fosse miragens
na veia algas marítimas
e uma fração logarítima
ainda por resolver


com quantas metáforas se faz uma miragem


ainda que fosse viagem
de metrô ou fantasia
e o assunto que eu mais queria
fosse o que não dissesse
e o mar apenas trouxesse
gaivotas sobre os cabelos
vento sol maresia
e o líquido que não bebemos
fosse conhac ou cerveja
mesmo assim a vida seja
entre o que os pêlos lateja
o que a tua boca não fala
o que a tua língua não prova
e a prova das dezessete
te levasse mais cedo
inda assim não tenha medo
a palavra entre meus dedos
é o que ainda não disse
miragem essa coisa nova
agora revisitada
naquela hora marcada
do encontro que não tivemos


mesmo que não permitas
que eu toque os lençóis da tua cama
ou desfaça este nó dos teus desvelos
mesmo que a astronomia
te leve a romper os astros
na miragem dos teus olhos
e eu nunca saiba exatamente
a cor dos teus cabelos
mesmo que a meta-física
salte da tela do cinema
e as algebras da tua física
te leve de mim embora
quero que este poema
no centro dos teus sentidos
fale nos teus ouvidos
do ser que me encontro agora

arturgomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com/



Alcinéia Marcucci disse...
Que os bons ventos tragam sempre para abanar nossos cabelos e refrescar nossa sede esta "pulsação de luz de fogo" despindo os extintos artísticos do gelo cotidiano.
Tenha um lindo 2011!
Abraço

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

jura secreta 124

da tua boca quero o beijo
desejo
que não seguro

já te perdi no passado
agora te tenho presente
mas não sei nosso futuro

do teu corpo
quero o cio
como nas prais do rio
seja mar onde quiser

na tua língua
a voragem
com toda sagaranagem
que entre teus seios
couber

que venha o sangue suor o fluxo
no teu pulsar onde pulso
nas ondas do teu impulso
esteja mar
onde estiver.

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Jura sereta 123

may musadaminhacannon.blogspot.com




ainda que fosse
só poema
que não seja
a boca
que a minha deseja
palavra
que em tua língua
apavora
saliva como fala
onde.o fogo é falo
que a trilha descortina
na íris da retina
onde teu instinto
me devora

artur gomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com/

terça-feira, 2 de novembro de 2010

onde estará você agora


beatriz bajo - musa daminha cannon



Jura secreta 122

esse poema não secreto
muito menos sagrado
mesmo se jura fosse
entre a face de fogo
e os teus olhos beatriz
por onde leio teu livro
no sangue da tua face
a flor na pele de seda
em fragmentos de Dante
as letras sobre o papel
e teus poemas transbordam
rios entrando meus poros
por toda língua delírios
extravasa irrompe penetra

esse poema não secreto
feito em teus olhos beatriz
tensão dos músculos
cravados sobre a palavra
onde pulsa, a cada lavra
a tua coisa mais plena
e esta jura serena
como uma missa profana
e os cabelos da noite cigana
o canto do amor entre a boca
e o mar que em teus seios agita
a febre que queima em meus dedos
e na boca o teu nome palpita


tropicalirismo

girassóis pousando
nu teu corpo
festa
beija-flor seresta
poesia fosse
esse sol que emana
do teu fogo farto
lambuzando a uva
de saliva doce

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/


terça-feira, 19 de outubro de 2010

XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA HOMENAGEIA FERREIRA GULLAR




Pela primeira vez nos últimos quinze anos o Congresso Brasileiro de Poesia não é realizado na primeira semana de outubro e sim, no final do mês. A edição deste ano acontece de 25 a 29, na cidade de Bento Gonçalves e homenageará os 80 anos de Ferreira Gullar.

Como já é tradição, mais uma vez a Capital Brasileira da Uva e do Vinho abrirá suas portas para a caravana de poetas que participarão da décima-oitava edição do Congresso Brasileiro de Poesia, um dos maiores encontros de poetas da América.

Tendo como tema “O viajante da Poesia”, em homenagem ao poeta Ferreira Gullar, aproximadamente cento e cinquenta poetas dos mais diversos estados brasileiros e de alguns países já confirmaram presença e participarão de uma programação diversificada com muitos recitais, performances, rodas de poesia, espetáculo teatral, palestras nas escolas e debates sobre as diversas formas do fazer poético.

A abertura do evento acontece no Salão Nobre da Prefeitura Municipal às 17 horas do dia 25, com performance do grupo carioca “Simplesmente Poesia” e um recital em homenagem ao poeta Oscar Bertholdo, por parte de alunos da Escola Estadual Dona Isabel, além do poeta Artur Gomes interpretando o poema Não Há Vagas, do homenageado Ferreira Gullar.

À noite, no anfiteatro Ivo Da Rold, na Fundação Casa das Artes, acontece mesa redonda sobre a obra do poeta Ferreira Gullar, coordenada por Eduardo Tornaghi, seguida de performance e recital poétco.

A partir da manhã de terça-feira, as atividades acontecerão no auditório do SESC, Biblioteca Municipal, Vai Del Vino e nas escolas do município.

Escolas continuam sendo prioridade do evento

Trinta e duas escolas do município participarão do evento deste ano, recebendo os poetas em suas dependências e doze delas deslocarão alunos para participar de atividades que acontecerão nas dependências do SESC. Os poetas também irão ao Presídio Municipal, APAE, Lar do Ancião, Centro de Atenção Psico-Social e ao Hospital Tacchini.

Entre os principais projetos que tradicionalmente compõem a programação oficial do evento destacam-se: “Poesia na vidraça” (que começa a ser executado já na terça-feira, dia 19, e consiste na utilização das vitrines das lojas do centro da cidade para exposição de poemas de autores brasileiros), “Poesia numa hora dessas?” (quando poetas apresentam recitais em repartições públicas e privadas), “Uma idéia tece a outra” (realizado na Biblioteca Municipal e que consiste no ‘empréstimo’ de um poeta a uma turma de alunos), além das tradicionais rodas de poesia na Via del Vino.

Recitais deverão fazer a diferença

Os organizadores mais uma vez apostam na realização de recitais de diversas correntes poéticas para garantir o sucesso dos eventos. Neste ano, dividirão o palco do SESC e de algumas escolas performances poéticos dos estados do Amapá, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul além de México, Chile e Uruguai.

No palco do SESC, além do grupo “Poesia Simplesmente” E “Tatamirô”, também apresentarão recitais e performances os seguintes poetas: Renato Gusmão, Marcos Bahrone, Artur Gomes e May Pasquetti,veja o vídeo: Se for poema fogo do desejo – Artur Gomes e May Pasquetti, filmados por Jiddu Saldanha no parque das Ruínas – Santa Teresa – Rio de Janeiro



E mais Dalmo Saraiva, Jiddu Saldanha, Telma da Costa, Edmilson Santini, Tanussi Cardoso e Delayne Brasil, Casa do Poeta de Camaquã, Casa do Poeta Latino-Americano, Confraria Cappaz e Comunidade Poemas à Flor da Pele.

Junto com o XVIII Congresso Brasileiro também serão realizados o XVIII Encontro Latino-Americano de Casas de Poetas, a XV Mostra Internacional de Poesia Visual, neste ano coordenada pelo poeta português Fernando Aguiar, e o XXI Salão Internacional de Artes Plásticas do Proyecto Cultural Sur/Brasil, organizado pela AAPLASG.

O evento é promovido pela Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves, através da Secretaria Municipal de Educação, SESC e é realizado pelo Proyecto Cultural Sur/Brasil. O apoio é da Câmara de Vereadores e Sindilojas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

jura secreta 120

Com quantas metáforas se faz uma miragem


ainda que fosse viagem
de metrô ou fantasia
e o assunto que eu mais queria
fosse o que não dissesse
e o mar apenas trouxesse
gaivotas sobre os cabelos
vento sol maresia
e o líquido que não bebemos
fosse conhac ou cerveja
mesmo assim a vida seja
entre o que os pêlos lateja
o que a tua boca não fala
o que a tua língua não prova
e a prova das dezessete
te levasse mais cedo
inda assim não tenha medo
a palavra entre meus dedos
é o que ainda não disse
miragem essa coisa nova
agora revisitada
naquela hora marcada
do encontro que não tivemos

mesmo que não permitas
que eu toque os lençóis da tua cama
ou desfaça este nó dos teus desvelos
mesmo que a astronomia
te leve a romper os astros
na miragem dos teus olhos
e eu nunca saiba exatamente
a cor dos teus cabelos
mesmo que a meta-física
salte da tela do cinema
e as algebras da tua física
te leve de mim embora
quero que este poema
no centro dos teus sentidos
fale nos teus ouvidos
do ser que me encontro agora



As flores do bem-me-quer

gaivotas perseguem peixes
quando estão com fome
a musa da minha janela
depois da prova de física
desfolha Charles Baudelaire

tem um jardim imaginário
no quintal desta metáfora
e um mar de algaravias
dentro dos olhos dela

percebo a flor da infância
bem-me-quer em teu cabelos
peixes que não são nuvens
girassóis fosse miragens
na veia algas marítimas
e uma fração logarítima
ainda por resolver

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/



Jura secreta119

no mar do teu umbigo
quero o que me revele
a pele a segunda pele
o nome o sobre nome
a flor da pele da coisa
que está no centro
por não te querer em partes
quero-te umbigo a dentro

arturgomes
http://blogdabocadoinferno.blogspot.com/


algazarra


esfinge

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Jura secreta 118





essa estrada que vai dar
no mar dos teus mistérios
ou
essa estrada que vai dar
no mar dos teus silêncios
ou
apenas o caminho para o mar
na coluna vertebral
dos teus suplícios
ou
o poema puro ofício
de te oferecer amor, meu vício
e te querer estrada. sim

eu
poderia abrir teu corpo
com os meus dentes
rasgar panos e sedas

da tua cama
arrancar os cobertores
desatar todos os nós

com as unhas
arranhar os teus pudores
rasgando as rendas
dos lençóis

perpetuar a ferro e fogo
minhas marcas no teu útero
meus desejos imorais

mal/dizendo
a hora soberana
com a força sobre/humana
dos mortais

quando vens me oferecer
migalha e fruto
como quem dá de comer
aos animais

arturgomes
http://carnavalhagumes.blogspot.com/


jura secreta 117




o poema fosse apenas o que eu quisesse
um beijo bem no fundo dos teus olhos
palavras passeando tua pele
enquanto a boca fosse pétalas
e o sorriso flor de lotus
fosse outono inverno em outras eras
e maira fosse a síntese de setembro
e esse agosto se abrindo
em sol de primaveras




artur gomes

vestígios do homem no planeta





a chama da vela acesa
teu corpo me arde
em chamas

artur gomes

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

jura secreta 116



para carolina zimerman

nossas palavras escorrem
pelo escorrer dos anos
estradas virtuais
fossem algaravias
nosso desejo que não se concreta

e
eu tenho a fome entre os dedos
a sede entre os dentes
e a língua sobre a escrita
que ainda não fizemos

e o que brota desse amor latente
se o desejoé tua boca
no lençol dos dias?

arturgomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

jura secreta 115



a flor da tua pele
me provoca amor intenso

mas amor é outra coisa
contrária a tudo aquilo
que penso

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


jura secreta 102


na subida da alice
ela me gritou de susto
pedindo a todo custo que ficasse
assim como se fosse amante
do engenho de dentro ainda tenho
um coração que é arte
e nele leio os poemas
que pensei no parque
e agora escrevo o hoje
que ficou no ontem



Jura Secreta 101

a flor da tua pele
me provoca amor intenso
mas amor não tem pele
nome ou sobrenome
amor é uma outra coisa
contrária a tudo aquilo que penso

amar-te não pelo acaso
de encontrar-te cabelos ao vento
onde provoca arte
em tudo aquilo que invento

Jura Secreta 100 sagaraNAgens fulinaímicas

guima
meu mestre
guima
em mil perdões eu vos peço
por esta obra encarnada
na carne cabra da peste
da Hygia Ferreira bem casta

aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta
ave palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais sagaranas
a Morte em Vidas severinas
tal qual antropofagia
teu grande Sertão vou cumer

nem João Cabral Severino
nem Virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer

a ferramenta que afino
roubei do mestre Drummundo
que o diabo giramundo
é o Narciso do meu Ser

Jura Secreta 99 injúria secreta

Suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
Ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida

Pedra do Reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
pétala na mola do moinho
palavra acesa na fogueira

pos os ismos tudo e pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema

a palavra que procuro
é clara quando não é gema
até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz

devassa em mim quando transcende
lamparina que acende
e transforma em mel
o que antes era pus

Jura Secreta 98

fosse quântico esse dia
calmo claro intenso inteiro
20 de fevereiro
sendo assim esperaria

mesmo que em meio a tarde
TROVOADAS tempestades
insanidades guerras frias
iniqüidade
angústia
agonia
mesmo assim esperaria

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias

até quando esperaria?
até que alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria

Jura Secreta 97 entri / dentes

queimando em Mar de Fogo me Registro
lá no fundo do teu íntimo
bem no branco do meu nervo
brota uma onde de sal e líquido
procurando a porta do teu cais

teu nome já estava cravado nos meus dentes
desde quando Sísifo olhava no espelho
primeiro como Mar de Fogo
registro vivo das primeiras Eras

segundo como Flor de Lótus
cravado na pele da flor primavera
logo depois gravidez e parto
permitindo o Logus
quando o amor quisera

Jura Secreta 96 para Márcio Vaccari

te procurei na Ipiranga
não te encontrei na Tiradentes
nas tuas tralhas tuas trilhas
nos trilhos tortos do Braz
fotografei os destroços
na íris do satanás

a cara triste da Mooca
a vaca morta no trem
beleza no caos: urbana
beleza é isso também

meu bem ainda mora distante
deste bordel carnavalho
a droga a erva o bagulho
Tietê um tonto espantalho

Jura Secreta 95 sagarínica ou fulinaimânica

não sou iluminista nem pretender
eu quero o cravo e a rosa
cumer o verso e a prosa
devorar a lírica a métrica
a carne da musa
seja branca negra amarela
vermelha verde ou cafuza

eu sou do mato
curupira carrapato
sou da febre sou dos ossos
sou da Lira do Delírio
São Virgílio é o meu sócio

Pernambuco Amaralina
vida breve ou sempre vida/severina
sendo mulher ou só menina
que sendo santa prostituta
ou cafetina devorar é minha sina
e profanar é o meu negócio

Jura Secreta 94 Pornofônico Confesso

se este poema inocente
indecente natural primitivo
em teu pulsar navegante
entrar por tua boca entre dentes
espero que não se zangue
se misturar o meu sangue
em teu pensar quando ANTROPO
por todas bocas do corpo
em total porno grafia
na Sagração da mulher

me diga deusa da orgia
se tu também não me quer
quando lateja em ti e devora
palavra por palavra dentro e fora
em pornofonia sonora

me diga lady senhora
nestes teus setenta anos
se nunca gozou pelos ânus

me diga bia de Dora
num plano lítero/estético
qual o humano ou cibernético
que te masturba ou te deflora?

Jura Secreta 93

como escritura secreta
da tua pele quero a epiderme
germe
que está dentro
lá no centro flor e pétala
do universo do teu ventre
o que está entre suor e sangue
esperma e pus

eu quero a luz de dentro
do teu eu e a ti entrego ego
centro do que é meu

como uma escritura sagrada
que algum deus nos prometeu

Jura Secreta 92 para Carolina Zimerman

tudo que quero em teu corpo grita
silêncio onde a palavra é gozo

a lua em tua pele espelha

aquilo que tu'alma aflita
reclama por inda não ter repouso

Jura secreta 91

ainda que eu escrevesse
meu amor não posso dizer-te
tudo que posso palavrAr-te
a carne arde a arte a tarde
ainda cedo não tenha medo
se o amor é cego
e o sexo aflora em teu corpo chama

lavro a parte que me cabe
e deixe que no papel escorra
para que não morra

toda sede de paixão sempre devora
fios elétricos os cabelos
girassóis presos nas coxas
e esse rio das ostras
algas crescendo entre os teus pêlos
estrelas gritando em tua boca
peixes mergulhados no teu ventre

esta língua lâmina que me lambe
tantos dentes
lamparina acesa entre teus olhos
alhos cebolas cheiro de bife mal passado

almôndegas de soja queijo vinho branco
tantos lençóis
e outras camas
quando te quero dentro

Jura Secreta 90

o que é que pula
embaixo do algodão da tua blusa
quando pensa no que pulso ?

apenas o tecido sobre a cor da tua pele
ou alguma coisa a mais que me revele
o íntimo instante na tua carne onde pulsa?

Jura Secreta 89

a face oculta da maçã
duas partes que se abrem pêssego

campo de girassóis teus pêlos
alvoroçados sob o sol de Amsterdã

enquanto isso
em teus mamilos penso
o que ainda não comi desta maçã

Jura Secreta 88

a flor que Alice traz na boca
não tem baton nem hóstia
é flor de lírios do cerrado
de um tom quase encarnado
meio marron meio carmim

cor dos olhos de alguém
que tem cheiro de alecrim
assim só pele e tecido
dentre a roupa sob pêlos
de um furor em carne viva
onde o sangue corre solto

pele de ouro e sol
risco de luz que em brasa e fogo
cheirando sexo todos poros
carne de estranha solidão

o teu nome quase sempre
em minha boca
como um beijo nunca findo
e o teu ser me permitindo
entre pétalas e pedras
sangrado o hímen da paixão

Jura Secreta 87

saliva ainda que fosse faca
ao invés do couro cru na carne viva
além da mesa posta
para as tuas mil perguntas
não tenho a mínima reposta

fosse setembro quase indo
nada que pensei da primavera
outubro uidobro e essa lua carnavalha
como uma faca na cara e teus dentes
vampira rasgando meu pescoço

ainda que fosse noite
e tuas mãos entre meus dedos
línguas estrelas dizendo
águas escorrendo o corpo
minha palavra tuas coxas
este poema em tua boca
flores talhadas no deserto

já fosse sol ao meio dia
com tuas dores do parto
pousado em ti o meu cansaço
quando do sonho me desperto

Jura Secreta 86

estando estupefato
nem concreto o fato
muito menos abstrato

mas a língua é de carne
o tutano está no osso

da fruta que você gosta
como mordo chupo
da pele da casca a carne do caroço

Jura Secreta 85

não estando aqui
mas fosse como se estivesse
e esse poema fosse fruto
uva manga pêra pêssego
laranja em tua pele de seda

fosse setembro então vindo
outubro que nos espera
palavra espora ou espuma
em tuas mãos como plumas
em tua língua de púrpuras
quando me fala do agora

do corpo que treme em febre
ou grita paixão entre os poros
salta a saudade entre os pêlos
como se fosse esta tarde
o dia em que conhecemos
um outro outubro lá dentro
nas veias vivas memórias

de azul vestida de rendas
naquela sala de longe
com os olhos te devorava

depois levei pelos braços
poemas falei bem de perto
na tua boca me via
dentro pulsavam os teus olhos

peguei tuas mãos que tremiam
o pulso pela garganta
este poema uma planta
em tua carne sedenta
de águas cervejas e vinhos

e nestas linhas te bebo
como voraz passarinho

Jura Secreta 84 fulinaímica poética

mais que sal
que sol que sangue
que todos os s os f
e todas as palavras
bebo esta mulher
com todo líquido que houver na língua

como esta mulher
com todo músculo que houver no corpo

amo esta mulher
com todo sexo que se fizer ao vento

com toda lua que se tiver em Vênus
com todo Marte que não houver netuno
com todo fumo que não for erva santa

com toda Arte da semente
que germina
Flor de Lótus mal-me-quer
ou planta

Jura Secreta 83 virgi niana

ave palavra cio
na porcelana ou na lata
lua de carne na boca
deusa em brasa na cama
tecendo vergonha alguma
fruta do amor que se ama
chupada dentro da mata
lírio se abrindo na lama
se assim não for a vida é pouca

ave palavra erótica
dos atos a mais sagrada
se eu queimar teu recato
com os meus dedos em fogo
incendiar tua fogueira

é que em todo altar a primeira
vez que se é consagrada
em vai e vem gera três
a carne em riste tarada
esperma o que nunca fez

Jura Secreta 82 unplugged

quero botar no seu Orkut
um negócio sem vergonha
um poema descarado
tá chegando fevereiro
e meu rio de janeiro
fica lindo e mascarado

quero botar no seu e-mail
um negócio por inteiro
eu não sou Zeca Baleiro
pra ficar cantando a mamma
que ainda tem medo do papa

meu negócio é só com uma mina
que me trampa quando trapa
meu negócio é só com uma mina
que me canta ouvindo rappa

Jura Secreta 81

se eu canto pouso a língua
entre os dentes
rente
onde a saliva espraia
pele espuma arraia
algas de algum mar distante
ondas de um pulsar
instante
onde o sol aclara
nave metal arara

areia como se fosse
pele conchas em tua boca luana
nua lá dentro sereia
o canto cravado lua cheia
sangue pulsante tua veia
e o gozo quando semeia
palavras ao vento passeia
quando entro na tua praia

Jura Secreta 80 o risco

atravessar as portas ultrapassar janelas
muros cidades paredes
o risco de te matar saudade
dentro da boca que quero

de penetrar garganta
laringe esôfago estômago
enquanto dançamos bolero

sendo um tango enquanto fado
arrisco o beijo guardado
num copo de vinho ou de menta

sabor de pimenta e alho
e o doce mel do kralho
enquanto a palavra entra
pelos teus olhos e abre
teu cais do porto fechado

arrisco meus dedos e dados
nos lances mais atrevidos
dos nossos sextos sentidos
por tudo que foi esperado

Jura Secreta 79 pontal.foto.grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí

as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí

as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui.

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?


Jura Secreta 78

esta mulher por toda noite me inflama
toma do meu corpo e me devora
tem os frutos do pomar entre os teus cios

e as algas do mar quando as amoras
brotam como seixos nos teus rios

Jura Secreta 77

tenho saudades da tua pele
dos teus olhos dos teus poros
até das tuas unhas quando arranha
aranha em minhas teias
quando tece teu sangue venal
em minha veias

ópio veneno letal a incendiar
meus másculos músculos de macho
quando acho o vão das tuas pernas
e dentro da tua ilha passeio

Jura Secreta 76

tua língua ainda trago em minha boca
gengiva mastigada
espasmo de orgasmo e sangue
te devorei no mangue
entre o que restou do mar
na flora e fauna da restinga

Piratininga ainda quando era uma lagoa
poesia não só existia ainda ali lia Pessoa

agora cobras lagartos
siris famintos no deserto
nenhuma água e sede tanta

se eu não beber nas Flores do Mal me quer
os líquidos dessa mulher
para aplacar meus desenganos

quem serei eu
daqui há 20 ou poucos anos?

Jura Secreta 75 bolero blue

beber desse conhac em tua boca
para matar a febre nas entranhas
entredentes
indecente é uma forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo

é que a fome desse beijo
furta outra qualquer palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai

Jura Secreta 74

faca não tem perfume
rosa sem espinho
é planta falsa

quando quero
ando sem calça
gosto de estar NU

passando a língua na relva
os dentes mordendo a Eva
em Carne Viva e Couro Cru

Jura Secreta 73

deixe que a minha mão deslize
sobre este papel louise ou pelas telas
e teclas
de onde jorram as escritas
grafismos figuralidades grafitemas
dentro dos nossos poemas

meus olhos aqui da janela
não querem visões desta cidade
mas sim delicadezas

pureza da síntese
nestes teus olhos bailarinos
pelo teu corpo inteiro

deixa eu tocar primeiro
no teu sentir mais íntimo
quando olhar no espelho
como um tocar de sinos
em sagaranas missas

sendo profano o canto
do que penso agora
no teu batom vermelho

Jura Secreta 72

dança no meu ventre
como um vento de maio
essa profana feminina
fosse Ana ou fosse raio
ou mesmo Santa Catarina

quando entra no meu peito
na linguagem do meu falo
e me fala o que tem feito
menos mais do que falado

na fulinaimagem do inverso
no verso meu o que importa
se estou rompendo a porta
dos teus lábios consagrados ?

Jura Secreta 71

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais

e minha língua fosse
só furor dos Canibais

e essa lua mansa fosse faca
a afiar os versos que inda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis

mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto vou te amar assim
admirando teu ratrato
enquanto penso minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

Jura Secreta 70 fulinaimagem

o que trago
embaixo as solas dos sapatos é fato
bagana acesa
sobra do do cigarro é sarro
dentro do carro ainda ouço Jimmi Hendrix
quando quero
dancei bolero sampleAndo rock and roll

prá colher lírios
há que se por o pé na lama
a seda pura foto-síntese do papel

tem Flor de Lótus nos bordéis Copacabana
procuro um mix da guitarra de Santana
com os espinhos da Rosa de Noel

Jura Secreta 69

uma mulher de peixes
nada em meu aquário
e quando nada nada
tudo nela cheira

apesar de no teu nome
trazer Andrade ao sobrenome
tem uma Lispector dentro dela

beijo-te nua na janela
apesar de toda roupa
Beatriz vê e não se espanta

canta que o ciúme é com o outro
e não comigo
beijo-te dos pés
até bem próximo do umbigo
dentro do parque de diversões
em noite qualquer desse domingo

Jura Secreta 68 para Juninho Vaccari

eu sou o outro que habita
dentro do meu outro eu
não a casca da cápsula
da carcaça aqui de fora

o que se vê no espelho
é só miragem - Narciso mergulhado
à própria sombra - o cavalo
na folhagem esse sim
é o que se vê na tela

quando a câmera revela
o concreto da outra pessoa
que não sou

Jura Secreta 67 para Marina Passarelli.

foto.grafei esta menina
desde os sete
na película sagrada da memória
em Retalhos Imortais do Serafim

e até hoje guardo o filme
em que ela entrou dentro de mim

brincávamos de Cavalinho Azul
na sala do apartamento da sua tia
Silvia Passarelli

hoje não mais menina
Marina mora dentro do poema
que me salta sobre a pele
no acetato do sem fim

Jura secreta 66 enigma tropical
a luz do sol mergulha a espinha dorsal do Equador nas costas Clara ela caminha em minha frente na calçada cabelos longos até o cóquix nu percebe-me a seu encalço vira o rosto não consigo ver teus olhos está de óculos escuros e não consigo tirar os meus daquela visão que é Bela Cintra ia dobrar na próxima esquina e resolvi seguir e continuar me deliciando com o movimento das duas pêras em minha frente sobressaltada pegou um ônibus deixando-me seguir em meus delírios e paixão por frutas que não são

Jura Secreta 65 silêncio gritos e sussurros

o seu corpo do poema
pede-me silêncio
ou algazarra?

farra
de bocas pernas coxas
línguas e dedos
nos recantos mais profundos
por onde dorme o teu desejo?

delicadas carícias pela nuca
em torno da orelha
lábios deslizando
ao redor do teu umbigo?

o que o seu corpo do poema
quer viver comigo?

o seu corpo do poema
no deserto das delícias
é escorpião ou percevejo?

é calmaria ou tempestade
no alto mar da liberdade
pede-me noite ou claridade

ou implora-me desesperadamente
os mais selvagens beijos?

Jura Secreta 64 veraCidade

por quê trancar as portas
tentar proibir as entradas
se já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas ?

um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e esse asfalto sob a sola dos meus pés
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário
João Guimarães Rosa Caio Prado Martins Fontes
um bacanal de ruas tortas

eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci

com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua Aurora

Jura Secreta 63 veraCidade 2

quando piso na Paulista
o poema é só um corpo
que se chama Carolina
e por mais que se defina
a esfinge sob a roupa
o delírio é só metáfora

e mesmo fosse concreto
sendo menos abstrato
esse corpo é uma seta
apontada em direção

flecha de fogo ou neon
como placas luminosas
nos meus olhos de dragão

e lâmina acesa de Vênus
na camisa aberta de marte
palavra vinda dos poros
brota do corpo em que piso
na Casa das Rosas que passo
subindo a calçada levito
dentro a Estação Paraíso

a geografia do corpo gravito
quando piso a Paulista me sinto
o amante do silêncio e do grito

Jura secreta 62

agora que me beija a boca
com os dentes livres do aparelho
que prendia a língua
carne de maçã dezembro
inda me lembro da primeira vista

vestia toda pele de azul do mar
até pensei que fosse naquele
outubro de dois mil e sete
cravado em mim tatuagem
teu amor fosse entregar

num voraz linguagem
entre unhas língua e dentes
no doce instante de sangrar

Jura Secreta 61

tuas coxas soltas no espaço
dançando bolero azul
entre meus braços
te arrebato com um beijo no pescoço
que arrepia a pele até o osso

teus pés sobre o meu corpo
dançam rock
e eu BOQUIABERTO com esse toque
passeio minha língua em tuas costas

da espinha dorsal até o cóquix
teus seios soltos esguicham no espelho
o branco leite em minha boca

e tua língua desvairada semi / louca
saliva nos meus músculos fendidos
nos meus dedos unhas amoladas
entranham-se devagar entre os tecidos

Jura secreta 60

fosse apenas uma menina
assim mesmo essa rima
desce ao mais íntimo do teu íntimo
muito pra lá de onde a tua boca chora

uma lágrima é brasa
e acende a chama quente
como um beijo líquido
no teu cio aceso
onde o pulsar devora

e
entre os teus seios entre
ponho meu falo no teu corpo agora

Jura Secreta 59

obscuro objeto do desejo
pode ser o beijo em tua língua oblíqua
retilínea ou curva
essa presa turva
numa paisagem na janela
quando amanheço um Dia D
a tarde já sei que noite é Dia Dela

tua fala mansa aquele selo dado
em minha boca bruta
numa quinta feira em noite plena
me alcança em cheio

mesmo por e-mail
me entrego inteiro
nesse Rio de Janeiro simbolismo à parte
esse desejo é Arte
de Amar-te aqui
muito além de Marte

Jura Secreta 58

agora que meu canto lírico
escorre pelos vales dos Vinhedos
e a carne dos teus brancos dedos
tocam meu corpo como marés em chamas
outubros outros já se foram
em minha fome tanta
que nenhuma palavra santa
caberia em tua pele Quântica
ou no poema papel por onde escrevo
em minha sede tântrica
desse vinho em tua boca
onde em teus lábios bebo

Jura Secreta 57

não há vento em teus cabelos
há não ser meus dedos
abrindo os lábios em tua boca
de espuma

e os meus nervos de aço
entre uma floresta de carne
e os teus dentes de seda

não há vento em tuas pernas
há não ser salivas
mar de conchas e lendas
no teu umbigo de areia

seiva de trigo e centeio
lua cheia em teus olhos
quando meus olhos de macho
penetram teus poros de rendas
colhendo algas nos seios

Jura Secreta 56

não fosse essa jura secreta
como uma língua
não poema em linha reta
em todo instante que em ti falo
logo que revela o amor pelo teu corpo
na palavra em que lavro
os teus olhos na janela

e beijo tua boca semi aberta
quando como se canto e fala
fosse todo cio mais que fogo

tua carne em chama nos lençóis
quando os poemas incendeiam
tua alma e já não cabem dentro a roupa
que reveste a tua pele

não fosse essa jura secreta
numa via estreita ou torta
quando a saliva te lambuza
e minha boca em tua blusa
palavrAndo em teu vestido
como tudo que é sentido
quando estou em tua porta

Jura Secreta 55

esse mar que agora bebo
fosse Mar i fosse Ana
ou mais que jura secreta
lavrada pele na retina
palavra lavra flor da pele
como se fosse luz
nas entranhas dessa rima

ou
fosse meus dedos longos
em tecidos de amor pra quem se ama
como beija-flor ou colibri
em noite de luas sagaranas

ou fosse apenas palavra
que vem do teu nome Mar i Ana.


Jura Secreta 54 para Ana Gusmão
1

xangô é parte da pedra
exu fagulha de ferro
ogum espada de aço
faz do meu colo teus braços

oxossi é carne da mata
yansã é fogo vento tempestade
yemanjá água do mar
oxum é água doce

oxalá em ti me trouxe
te canto como se fosse u
m novo deus em liberdade

2

sou teu leão de fogo
todo jogo que me propor eu topo
beber teu copo comer da tua comida
encarar de frente
a janela de entrada
e se for preciso a porta de saída

Jura secreta 53

se eu não beber teus olhos
não serei eu nem mais ninguém
quando roçar teus dentes
desço garganta mais além

quando tocar teu íntimo
onde o ser é mais intenso
Jura Secreta não penso
bebo em teus cios também

Jura Secreta 52 Goytacá Boy
musicado e cantado por Naiman
no CD fulinaíma sax blues poesia

ando por são Paulo meio Araraquara
a pele índia do meu corpo
concha de sangue em tua veia
sangrada ao sol na carne clara

juntei meu goytacá teu guarani
tupy or not tupy
não foi a língua que ouvi
em tua boca caiçara

para falar para lamber para lembrar
da sua língua arco íris litoral
como colar de uiara
é que eu choro como a chuva curuminha
mineral da mais profunda
lágrima que mãe chorara

para roçar para provar para tocar
na sua pele urucun de carne e osso
a minha língua tara
sonha cumer do teu almoço
e ainda como um doido curuminha
a lamber o chão que restou da Guanabara

Jura Secreta 51

moro no teu mato dentro
não gosto de estar por fora
tudo que me pintar eu invento
como o beijo no teu corpo agora

desejo-te pelo menos enquanto resta
partícula mínima micro solar floresta
sendo animal da Mata Atlântica
quântico amor ou meta física
tudo o que em mim não há respostas

metáfora d'alquimim fugaz Brazílica
beijo-te a carne que te cobre os ossos
pele por pele pelas tuas costas

os bichos amam em comunhão na mata
como se fosse aquela hora exata
em que despes de mim o ser humano
do corpo rasgamos todo pano
e como um deus pagão pensamos sexo.

Jura secreta 50 transpiração ANTROPO / fágica

por onde quer que eu te cantasse
devorasse amasse ou comesse
não bastaria o poema por onde então começasse
Jura Secreta que fosse
palavra indiscreta escrevesse

meus dentes em teu corpo deixasse
a língua onde quer que lambesse

não bastariam meus dedos em riste
lavrando a carne onde berras
se queimas no inferno de Dante

e não sabes ver que o amante
é o SER transpirado da Terra

Jura Secreta 49

se queres que eu grite
a morte da Natureza Morta
antes pense Magritte
e a natureza reta
de alguma palavra torta

sobre o sangue a FLOR DA PELE
Michèle nua me entorta
em ondas de mar e lua
Gisele levita Atrás da Porta

Jura Secreta 48

de Almada vou de atravessar o Tejo
barco à vela Portugal afora
em Lisboa vou compor um fado
e cantar no Porto feito um blues
rasgado de amor pela senhora
que me espera em paz

e todo vinho que eu beber agora
será como beijo que eu guardei inteiro
como um marinheiro que retorna ao cais

Jura Secreta 47

com os dentes
cravados na memória
soletro teu nome:
C a b o F r i o

barco bêbado
naufragado
fora do teu cais

caminho marítimo
por onde talvez
já passou meu pai

Jura Secreta 46

érica alice por quanto mais eu não a visse
estava ali a miragem
fosse só sacanagem
em que eu olhasse e fingisse
mesmo que sendo voragem
uma mosca em tuas costas
na tatuagem oposta
quase uma carne mulher

e eu a visse de frente
com os teus olhos serpente
a devorar-me no que disse

Jura Secreta 45 baby é cadelinha

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob o esterco de Vênus
onde me perco mais me encontro menos

de tudo o que não sei
só fere mais quem menos sabe
sabre de mim baioneta estética
cortando os versos do teu descalabro

visto uma vaca triste como a tua cara
estrela cão gatilho morro:
a poesia é o salto de um vara

disse-me uma vez só quem não me disse
ferve o olho do tigre enquanto plasma
letal a veia no líquido do além
cavalo máquina meu coração quando engatilho

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os demônios de Eros
onde minto mais porque não veros

fisto uma festa mais que tua vera
cadela pão meu filho forro:
a poesia é o auto de uma fera

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os panos quem incesta ?
perfume o odor final do melodrama

sobras de mim papel e resma
impressão letal dos meus dedos imprensados
misto uma merda amais que tua garra
panela estrada grão socorro:
a poesia é o fausto de uma farra

Jura Secreta 44 cardio.grafia

que esta palavra bendita
nãos seja dor quando mal dita
como espinha quando aflora
ou espora enquanto irrita

minha cardio.grafia em suma
não é pena nem pluma
apenas palavra que resuma
o silêncio como agora
ou sonora enquanto grita

Jura Secreta 43 pontal.foto.grafia

Aqui,
redes em pânico pescam
esqueletos no mar
- esquadras - descobrimento
espinhas de peixe convento -
cabrálias esperas relento -
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
- Atafona.Pontal.Grussaí -
as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?

penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
- fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal. Grussaí -
as crianças são testemunhas :
Mallarmé passou por aqui.

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

Jura secreta 42 para Danielle Morreale

dani-se se ela me pisar nos calos
me cumer o fígado me botar de quatro
assim como cavalo galopar meus pêlos
devorar as vértebras

dani-se se ela me vier de unhas
me lascar os dentes até sangrar meu sexo
me enfiar a faca apunhalar meus olhos
perfurar meus dedos

dani-se se o amor for bruto
até mesmo sádico neste instante lírico
se comédia ou trágico

quero estar no ato
e dani-se o fato deste sangue quente
nas veias dos infernos

deixa queimar os ossos
e explodir os nossos
poemas pós modernos

a vida pesa quando vale Dani-se: Morreale

Jura Secreta 41 sampleAndo

o poema pode ser um beijo em tua boca
carne de maçã em maio
um tiro oculto sob o céu aberto
estrelas de néon em Vênus
refletindo pregos no meu peito em cruz

na Paulista Consolação
na Água Branca Barra Funda
metal de prata desta lua que me inunda
num beijo sujo com uma Estação da Luz

nos vídeos / filmes de TV
eu quero um clipe nos teus seios quentes
uma cilada em tuas coxas japa
como uma flecha em tuas costas índia
ninja gueixa eu quero a rota teu país ou mapa

teu território devastar inteiro
como uma vela ao mar de fevereiro
molhar teu cio e me esquecer na Lapa

Jura Secreta 40

fosse apenas o que já foi dito
escrito falado pensado
não fosse tudo o que já foi maldito
e nada do que nunca foi sagrado

falo em tua boca enquanto em transe
um anjo me ilumina tanto
que mesmo mudo em tua língua canto

como um diabo que subindo aos céus
tentou muito mais de uma vez
quem sabe Gregório ou quem sabe Castro
descendo aos infernos como sempre fez

talvez Camões no corpo de um astro
me lançe a infinita chama da pornô Gráfica lucidez

Jura Secreta 39

quando tenso
o poema penso
fio suspenso no
Ar
quando teso
o poema preso
peixe surpreso no
Mar

Jura Secreta 38

de Dante a Chico Buarque
todos os poetas
já cantaram suas musas

Beatriz são muitas
Beatriz são quantas
Beatriz são todas
Beatriz são tantas

algumas delas na certa
também já foram cantadas
por este poeta insano e torto
pra lhes trazer o desconforto
do amor quando bandido

Beatriz são nomes
mas este de quem vos falo
não revelo o sobrenome

está no filme sagrado
na pele do acetato
na memória do retrato
Beatriz no último ato
da Divina Comédia Humana
quando deita em minha cama
e come do fruto proibido

Jura Secreta 37

o espectro de Vermmer
agora mora na ante/sala
dos meus músculos

fugiu das telas do Louvre
e livre em meu corpo passeia
misturando tintas
até não mais definir
a cor do sangue em minha veia

meninas leiteiras rapazes
e tudo mais que ele criou
o espectro é uma obra de carne
no osso de quem pintou

Jura secreta 36

afora em mim grafitemas
nenhuma figuralidade
frutas legumes verduras
quem cala a fala consente
houve um tempo que a dita/dura
calou a fala da gente

grafito em tua carne de pedra
medusa de sete patas
poema de sete cabeças

miragens do amor que enlouqueça
apóstolos na santa ceia
Miró brincando de circo
com os olhos na lua cheia

Jura secreta 35 esfinge

o amor
não é apenas um nome
que anda por sobre a pele
um dia falo letra por letra
no outro calo fome por fome
é que a pele do teu nome
consome a flor da minha pele

cravado espinho na chaga
como marca cicatriz
eu sou ator ela esfinge:
Clarice/Beatriz:

assim vivemos cantando
fingindo que somos decentes
para esconder o sagrado
em nossos profanos segredos
se um dia falta coragem
a noite sobra do medo

é que na sombra da tatuagem
sinal enfim permanente
ficou pregando uma peça
em nosso passado presente

o nome tem seus mistérios que
se escondem sob panos
o sol é claro quando não chove
o sal é bom quando de leve
para adoçar desenganos
na língua na boca na neve

o mar que vai e vem não tem volta
o amor é a coisa mais torta
que mora lá dentro de mim
teu céu da boca é a porta
onde o poema não tem fim

Jura secreta 34

por que te amo
e amor não tem pele nome ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
por que te amo
no sol no sal no mar na neve

Jura secreta 33 ind/gesta

uma caneta pelo amor de Deus
uma máquina de escrever
uma câmera por favor
um computador
nem que seja pós moderno

vamos fazer um filme
vamos criar um filho
deixa eu amar a Lídia
que a mediocridade desta idade mídia
não coca cola mais nem aqui nem no inferno

jura secreta 32 flor do pampa para cláudia gonçalves

esta flor
que trago aqui agora em minha boca
vermelha rosa que floriu nos pampas
traz a seiva de uma terra santa
que todo mês fazendo sol o chuva
floresce em vinho a uva
e tudo mais que o amor fizer

essa rosa que espelha fina estampa
aqui entre meus dentes
pele presente de uma musa
que traz nos belos seios
um poema em tua blusa
e na flor da pele um nome de mulher

Jura secreta 31

não sei se o teu nome
um dia será alimento ou líquido
para minha sede ou fome

mas quero-o escorrendo pelos poros
em todas partes do corpo
onde quer que ele caiba

e quero que ainda saiba
não tenho papas na língua
e por onde quer que alcance
lá estarei lavrando o sangue
em poesia

com as mãos nas tuas pernas
com a língua em tuas coxas
e as outras partes do corpo
numa total sinestesia

linguagem corporal é grafia
desbravamento secreto
de línguas dentes e dedos

se não der pra matar a fome
é que o amor só se alimenta em segredo

Jura secreta 30

eu sou drummundo
e me confundo na matéria amorosa
posso estar na fina flor da juventude
ou atitude de uma rima primorosa

e até na pele/pedra quando me invoco
e me desbundo baratino
e então provoco umbarafundo Cabralino

e meto letra no meu verso
estando prosa
e vou pro fundo
do mais fundo
o mais profundo
mineral Guimarães Rosa

Jura secreta 29 rio em pele feminina

o rio com seus mistérios
molha meu cio em silêncio
desejo o que nos separa
a boca em quantos minutos
as flores soltas na fala
o pó dos ossos dos anos

você me diz não ter pressa
seus olhos fogo na sala
o beijo um lance de dados
cuidado cuidado cuidado
que sou um anjo de fadas
não beije assim meus segredos

meus olhos faróis nos riachos
meus braços dois afluentes
pedaços do corpo do rio
meus seios ilhas caladas
das chamas não conhece o pavio

se você me traz para o cio
assim que o sexo aflora
esta palavra apavora
o beijo dado mais cedo
quebra meu ser no espelho
meu cerne é carne de vidro
na profissão dos enredos
quanto mais água me sinto
presa ao lençol dos seus dedos

o rio retrata meu centro
na solidão de mim mesma
segundo a segundo nas águas
lá onde o sol é vazante
lá onde a lua é enchente
lá onde o rio é estrada

onde coloca seus versos
me encontro peixe e mais nada

Jura secreta 28

vasa sob meus pés um Rio das Ostras
as minhas mãos em conchas
passeiam o mangue dos teus seios
e provocam o fluxo do teu sangue

os caranguejos olham admirados
a volúpia dos teus cios
quando me entregas o que traz
por entre as praias
e permites desatar
todos os nós do teu umbigo

transbordando mar de búzios
oceanos - atlântico pulsar entre dois corpos
que se descobrem peixes -
e mergulham profundezas
qualquer que seja a hora
em que se beijam num pontal
em comunhão total com a natureza

Jura secreta 27

Cezane não pintava flores
montado em seu cavalo alado
despeja cores
no corpo da mulher amada

com os pincéis
encravados entre as coxas
transformou Hollandas
em quintais de vento

reINventou o tempo
na hora de pintar

Jura secreta 26

a lavra da palavra quero
quando for pluma
mesmo sendo espora

felicidade uma palavra
onde a lavra explora
se é saudade dói mas não demora
e sendo fauna linda como a Flora
lua Luanda vem não vá embora

se for poema fogo do desejo
quando for beijo que seja como agora

a lavra da palavra quero
seja pele pluma onde Mayara bruma
já me diz espero

saliva na palavra espuma
onde tua lavra é uma
elétrica pulsação de Eros

a dança do teu corpo vero
onde tu alma luna
e o meu corpo empluma
valsa por Laguna em beijos e boleros

Jura Secreta 25

te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
Porto Alegre cais do porto
barcos navios no teu corpo
os peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos
as rendas finas que vestias
sobre os teus pêlos ficção

todos os laços dos tecidos
e àquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
e o baton da tua boca
o sabor da tua língua
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes

e para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado
se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa

Jura secreta 24

gosto de cumer a traça
e se és parte da raça
nesta selva vira caça
se és humana e ultrapassa
a espécie do que caço
estás salva dos meus dentes

mas se ainda és curuminha
por onde vais e caminha
entre a cidade e o matagal
pode inspirar meu samba/enredo
e desfilar entre os meus dedos
onde tudo é carnaval

Jura secreta 23

amei uma mulher que não era
mas era como se fosse
como se fosse terra
como se fosse água
como se fosse fogo
como se fosse ar
como se fosse mata
como se fosse mar
como se fosse céu
como se fosse chuva
como se fosse chão

não era uma vera ficher
mas era como se fosse
não era a débora secco
mas era como se fosse
nem carolina dickman
mas era como se fosse
não era nicole kidman
mas era como se fosse
nem marieta severo
mas era como se fosse

não era uma imperatriz
mas o nosso castelo de areia
era como se fosse
Minas do Rei Salomão

amei esta mulher feliz
que era como se fosse
atriz de televisão

Jura secreta 22

olhei para cara do tempo
ela estava fechada não me dizia nada
pensei as sagaranagens
que o tempo fazia comigo
peguei do tempo o umbigo
cortei na ponta da faca
e a tua cara de vaca
sangrei sem nenhum remorso
porque isso o tempo não tem

agora o tempo sorri
me mostra os dentes da boca
e a tua cara de louca
é a minha cara também

Jura serceta 21

ana quando a vida não for sacana
a gente engendra a sagarana
e inventa a sagaranagem
não te preocupes luisa
com o elo dessa engrenagem
com a direção do vento norte
ou se vem do sul esta brisa
se embaixo da tua camisa
palpitam dois lindo seios
que as minhas mãos alcançam em cheio
nas cenas que já escrevi
com os sonhos que prometeu
mas que agora não são mais teus
eles ficaram por aqui

Jura secreta 20

não fosse o amor essa faca de dois gumes
e o tempo que chove na janela
entre os meus e os olhos dela
alguma face no espelho e o sangue pelas veias
atiçando unhas e músculos

não fosse uma lâmina acesa
entre os corredores do corpo
quando a carne é brasa e as paredes da casa
não separassem mais nada

quando os pulsos saltam das portas
para os porões do mais íntimo
não fosse essa lâmpada esse cálice
esse líquido pela boca tenso
quando entra pelo teu quarto
tudo aquilo enquanto penso

Jura secreta 19

quero dizer que ainda arde
tua manhã em minha tarde
a tua noite no meu dia
tudo em nós que já foi feito
com prazer ainda faria

quero dizer que ainda é cedo
ainda tenho um samba/enredo
tudo em nós é carnaval
é só vestir a fantasia

quero ser teu mestre sala
e você porta/bandeira
quando chegar na quarta feira
a gente inventa outra fulia

Jura secreta 18

meu objeto concreto
é um poema abstrato
impressionista realista
quem sabe até neo concretista
poderoso artefato
uma bomba de hiroshima
uma rosa parafina
ou quem sabe uma menina
que conheci só no retrato

Jura secreta 17 leminskiAna

o estado pode ser de choque
ou quem sabe até de surto
o soco pode ser no estômago
a facada for ferir o fígado
o bandido me assaltar na via
o sangue explodir na veia
a vodka só me der asia

todo instante que vier eu curto
a palavra que pintar eu furto
tudo o que eu faço é poesia.

Jura secreta 16 para may pasquetti

fosse esta menina Monalisa
ou se não fosse apenas brisa
diante da menina dos meus olhos
com esse mar azul nos olhos teus

não sei se MichelÂngelo
Da Vinci Dalí ou Portinari te anteviram
no instante maior da criação
pintura de um arquiteto grego
quem sabe até filha de Zeus

e eu Narciso amante dos espelhos
procuro um espelho em minha face
para ver se os teus olhos
já estão dentro dos meus

Jura secreta 15 sonhos de verão

lendo em teu livro/corpo
corpo/livro que me empresta
este poema é o que resta
das mil e umas noites de verão
quando pensei em Teerã
você sonhava comigo
e eu coloquei no teu umbigo
veneno doce da maçã

e o vermelho sangue da pitanga
foi o que ficou na minha tanga
quando beijou meu sexo de manhã

e o teu sonho me revelava
o consciente do teu in
ultrapassava o sono do teu eu
e mostrava o que quer de mim

assim como uma praia em fortaleza
marília londrina itajubá porto inseguro
dentro do sol nosso futuro
velas ao mar algas na areia
este teu corpo me ponteia
como punhal na lua cheia
apalo seco na canção

e eu solto velas ao vento
na travessia espaço e tempo
sendo real ou tanto faz
com a linguagem que invento
para aportar teu porto e cais

Jura secreta 14

eu te desejo flores lírios brancos
margaridas girassóis rosas vermelhas
e tudo quanto pétala
asas estrelas borboletas
alecrim bem-me-quer e alfazema

eu te desejo emblema
deste poema desvairado
com teu cheiro teu perfume
teu sabor teu suor tua doçura

e na mais santa loucura
declarar-te amor até os ossos

eu te desejo e posso :
palavrArte até a morte
enquanto a vida nos procura

Jura secreta 13

o tecido do amor já esgarçamos
em quantos outubros nos gozamos
agora que palavro itaocaras
e persigo outras ilhas
na carne crua do teu corpo
amanheço alfabeto grafitemas

quantas marés endoidecemos
e aramaico permaneço doido e lírico
em tudo mais que me negasse
flor de lótus flor de cactos flor de lírios
ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse
Hilda Hilst quando então se me amasse

ardendo em nós salgado mar e Olga risse
olhando em nós flechas de fogo se existisse
por onde quer que eu te cantasse ou amavisse

Jura secreta 12

taubaté
tremembé
tamanduateí
tabatinga
taguatinga
tracunhenhem
tucuruví

toda palavra nua me tesa
como o t da tua tigresa
Matisse que nunca vi

Jura secreta 11 engenho 484 para jiddu saldanha

arrancar do gesto
a palavra chave
da palavra a imagem xis
tudo por um risco
tudo por um triz

o trem bala (cospe esqueletos
no depósito da Central)
fuzil pode ser nosso brinquedo:
novo enredo para o próximo carnaval

Jura secreta 10

fosse o que eu quisesse
apenas um beijo roubado em tua boca
dentro do poema nada cabe
nem o que sei nem o que não se sabe

e o que não soubesse
do que foi escrito
está cravado em nós
como cicatriz no corte
entre uma palavra e outra
do que não dissesse

Jura serceta 9

não fosse o teu amor
o meu conforto
e eu teu anjo torto
como seria
se a jura secreta
não fosse mais que um poema
e se eu não te amasse
como Glauber no cinema
o que tenho aqui
no corpo em transe: a quem daria?

Jura secreta 8

hoje vi na rua a palavra ibirapitanga
que eu não conhecia
e mesmo não a conhecendo
já sabia que existia
assim como:

ibirapitinga
ibiratininga
annhangabaú
anhanguera
araraquara
jabaquara
ibirapuera

Jura secreta 7

fosse Sampa uma cidade
ou se não fosse não importa
essa cidade me transporta
me transborda me alucina
me invade inter fere na retina
com sua cruel beleza

como Oswald de Andrade
e sua realidade
como Mário de Andrade
e sua delicadeza

Jura secreta 6

o que passou não ficará já foi
a menina dos meus olhos
roubou a tua menina
e levou para festa do boi

fosse um Salgado Maranhão
nosso batismo de fogo
25 de março
e o morro queimando em chamas
no canto pro tempo nascer

e o amor que a gente faria
o sol acabou de fazer

Jura secreta 5

não fosse essa alga
queimando em tua coxa
ou se fosse e já soubesse
mar o nome do teu macho
o amor em ti consumiria

Olga Savary
no sumidouro dos meus dias

o couro cru
na antropofágica erótica
carne viva
tua paixão em mim
voraz língua nativa

Jura secreta 4

a menina dos meus olhos
com os nervos à flor da pele
brinca de bem-me-quer
ela inda pensa que é menina
mas já é quase uma mulher

Jura secreta 3

fosse essa jura sagrada
como uma boda de sangue
às 5 horas da tarde
a cara triste da morte
faca de dois gumes
naquela nova granada
e Federico Garcia Lorca
naquela noite de Espanha
não escrevesse mais nada

Jura secreta 2

não fosse esse punhal de prata
mesmo se fosse e eu não quisesse
o sangue sob o teu vestido
o sal no fluxo sagrado
sem qualquer segredo

esse rio das ostras
entre tuas pernas
o beijo no instante trágico
a língua sem que ninguém soubesse
no silêncio como susto mágico
e esse relógio sádico
como um Marquês de Sade
quando é primavera

Jura secreta 1

a língua escava entre os dentes
a palavra nova
fulinaimânica/sagarínica
algumas vezes muito prosa
outras vezes muito cínica

tudo o que quero conhecer:
a pele do teu nome
a segunda pele o sobrenome
no que posso no que quero

a pele em flor a flor da pele
a palavra dândi em corpo nua
a língua em fogo a língua crua
a língua nova a língua lua

fulinaímica/sagaranagem
palavra texto palavra imagem
quando no céu da tua boca
a língua viva se transmuta na viagem

Jura Secreta

não fosse essa jura secreta
mesmo se fosse e eu não falasse
com esse punhal de prata
o sal sob o teu vestido
o sangue no fluxo sagrado
sem nenhum segredo

esse relógio apontado pra lua
não fosse essa jura secreta
mesmo se fosse eu não dissesse
essa ostra no mar das tuas pernas
como um conto do Marquês de Sade
no silêncio logo depois do susto

JURAS SECRETAS feitiçarias de Artur Gomes - Michèle Sato

Difícil iniciar um prefácio para abordar feitiçarias de um grande mestre. A mágica aparição do texto transborda sentidos cósmicos, como se um feixe de luz penetrasse em um túnel escuro dando-lhe o sorver da vida. Diariamente, recebo um deserto imenso de poemas e a leitura se esvai com “batatinha quando nasce põe a mão no coração”. Um ou outro me chama a atenção, desde que sou do chamado “mundo das ciências” e leio poemas com coração, mas inevitavelmente aguçado pelo olhar crítico vindo do cérebro.

A academia pode ser engessada, mas é, sobremaneira, exigente. Aplaude o inédito, reconhecendo que o poema é um caos antes de ser exteriorizado, mas harmônico, quando enfeitiçado. A leitura requer algo como canto do vento, que não seja fugaz, mas que acaricie no assopro da Terra. Por isso, é com satisfação que inicio este pequeno texto, sem nenhuma pretensão de esgotar o talento do grande mestre, mas responder aos poemas de Artur que brilham, soltam faíscas, incendeiam-se em erotismo e garras enigmáticas. Ele transcende regras, inventa palavras, enlouquece verbos. E as relações estabelecidas revelam a desordem dos sonhos na concretude harmônica de suas palavras.

A aventura erótica não se despede de seu olhar político. Situado fenomenologicamente no mundo, e transverso nele, Artur profana o sagrado com suas invenções transgressoras. Reinventa a magia e decreta uma nova vida para que o mundo não seja habitado somente pelos imbecis. Dança no universo, com a palavra fluída, imprevistos pitorescos, mordidas e grunhidos. Reaparece no meio de um cacto espinhoso, mas é absurdamente capaz de ofertar a beleza da flor. Contemporâneo e primitivo se aliam, vencem os abismos como se ao comerem as palavras monótonas, pudessem renascer por meio da antropofagia infinita de barulhos e silêncios. O sangue coagulado jorra, as cavernas se dissolvem e é provável que poucos compreendam a beleza que daí se origina.

Nos labirintos de suas palavras, resplandece o guerreiro devorador, embriagado, quase descendo ao seu próprio inferno. Emana seu fogo, na ardência de sexo e simultaneamente na carícia do amor. Pedras frias se aquecem, coram com o tom devasso que colore a mais bela das pornofonias. Marquês de Sade sente inveja por não ser o único déspota das palavras sensuais. E os poemas de Artur reflorescem, exalam odor como desejos secretos e risos que ecoam no infinito.

não fosse essa alga queimando em tua coxa ou se fosse e já soubesse mar o nome do teu macho o amor em ti consumiria (jura secreta 5)

De repente um cavalo selvagem cavalga na relva úmida, como se o orvalho da manhã pudesse revelar o fogo roubado das pinturas rupestres. Ao som de tambores, suas palavras se tornam arte em si, como se fossem desenhos projetados em um fantástico mundo vertiginoso. Seres encantados surgem das águas originários de sentimento, abraçadas nas pedras lisas, rugosas, esverdeadas da terra. O fogo dança em vulcões e a metamorfose é percebida em seus ares. Os elementos se definem como bestas, humanos, ou segmentos da natureza como uma orquestra sinfônica que vai além da sonoridade. Adentram sentidos polissêmicos e, neste momento, até o André Breton percebe o significado das palavras de Artur, pois a beleza é convulsiva e crava no peito feito cicatriz.

e o que não soubesse do que foi escrito está cravado em nós como cicatriz no corte (jura secreta 10)

Da violação do limite, do fruto proibido ou da linguagem erótica, os poemas de Artur são orgasmos literários que oscilam entre o sacro e o profano. Sua cultura, visão de mundo e inteligência possibilitam ir além da pura emoção sentimental, evocando a liberdade para que a terra asfixiada grite pela esperança. Artur comunga com outros seres a solidariedade da Terra, ainda que por vezes, seja devastador em denunciar disparidades, mas é habilidoso em anunciar acalentos. A palavra poética desfruta fronteiras, e Roland Barthes diria que a história de Artur é o seu tributo apaixonado que ele presta ao mundo para com ele se conciliar. Em sua linguagem explosiva, provavelmente está a intensidade de sua paixão - um amor perverso o suficiente para viciar em suas palavras, mas delicado o bastante para dar gênese ao mundo enfeitiçado pela habilidade de sua linguagem.

A essência deste perfume parece estar refletida num espelho, pois se as linguagens podem incluir também o silêncio, as palavras de Artur soam como uma melodia. Projetada numa tela, a pintura erótica torna-se sublime e para além de escrevê-las, ele vive suas linguagens. Esta talvez seja a diferença de Artur com tantos outros poetas: a sua capacidade de transcender a tradição medíocre para viver um intenso de mistério de sua poética. Ele não duvida de suas palavras, nem as censura para não quebrar seu encanto, mas devora em seu ser na imaginação e no poder de sua criação. Criador e criatura se misturam, zombam da vida, gargalham da obviedade. Põem-se em movimento na dança estrelas que iluminam a palavra.

Os fragmentos poéticos são misteriosos de propósito, uma cortina mal fechada assinala que o palco pode ser visto, porém não em sua totalidade. Disso resulta a sedução para que ele continue escrevendo, numa manifestação enigmática do poder surrealista em nos alertar sobre nossas incompletudes fenomenológicas. O imperfeito é o sentido da fascinação, diria Barthes em seus fragmentos de um discurso amoroso. E a poética de Artur não representa ressurreição, nem logro, senão nossos desejos. O prazer do texto pode revelar o prazer do autor, mas não necessariamente do leitor. Mas Artur lança-se nesta dialética do desejo, permitindo um jogo sensual que o espaço seja dado e que a oportunidade do prazer seja saciada como se fosse um "kama sutra poético" para além do prazer corporal. Esta duplicidade semiológica pode ser compreendida como subversiva da gramática engessada - o que, em realidade, torna seus textos mais brilhantes. Não pela destruição da erudição, mas pela abertura da fenda, para que a fruição da linguagem seja bandeira cultural da liberdade.

E a sua liberdade projeta-se num horizonte onde a dimensão sócio-ambiental é freqüentemente presente. É uma poesia universal de representações urbanas e rurais, de flora, fauna e fontes de praças públicas. Desacralizando o “normal previsível”, borda em sua costura de mosaicos, esquinas e passaredos.

eu sei de gente e de bichos ambos atolados no lixo tem gente que come bicho tem bicho que come gente tem gente que vive no lixo tem lixo que mora no bicho gente que sabe que é bicho e bicho que pensa ser gente(jura secreta 28)

A poética das Juras Secretas opõem-se a instância pretérita numa espiral de presente com futuro. Metafisicamente, desliga-se do momento agonizante e os olhos do poeta não se cansam, ainda que a paisagem queira cansá-los. Seu toque lembra o neoconcretismo, por vezes, cuja aparição na semana da arte moderna mexeu com os mais tradicionais versos da literatura ordinária. Mas sua temporalidade vence Chronos, na denúncia de um calendário tirano ao anúncio de Kairós, também senhor do tempo, mas que media pelos ritmos do coração.

20 horas 20 noites 20 anos 20 dias até quando esperaria... até quando alguém percebesse que mesmo matando o amor o amor não morreria. (jura secreta 98)

É óbvio que a materialidade da linguagem, sua prosódia e seu léxico se mantêm no texto. Mas foge das estruturas engessadas do arrombo repetitivo, florescendo em neologismos verossímeis e ritmos cardíacos. Amiúde, são palavras jorradas em potente cultura significante. No chão dialogante, este poeta desestabiliza a normalidade com suas criações.

por que te amo e amor não tem pele nome ou sobrenome não adianta chamar que ele não vem quando se quer porque tem seus próprios códigos e segredos mas não tenha medo pode sangrar pode doer e ferir fundo mas é razão de estar no mundo nem que seja por segundo por um beijo mesmo breve por que te amo no sol no sal no mar na neve.(jura secreta 34)

ARTUR GOMES é, para mim, um grande relato de seu próprio devir, que sabe poetizar a partir de seu vivido. E por isso, enfeitiça.